Rui Paulo Martins recorda os tempos em que acompanhava o pai e o avô nos trabalhos na tanoaria. As tanoarias, onde se fabricavam os barris, eram muito abundantes na Marvila dos anos 50 e muita gente nelas trabalhava ou fazia biscates.

O meu avô era tanoeiro e portanto, em vez de ter as alfaces e as ervilhas e os tomates, tinha uma pequena tanoaria e tinha ainda em madeira um sítio onde ele fazia a água-pé. Portanto recordo-me de brincar aí e de pisar a uva dentro daquele pequeno lagar de madeira da água-pé.

Havia lá uma série de tanoarias onde o meu pai também acabava por ir trabalhar. O meu pai trabalhava nos correios, tinha algum tempo livre, não sei a que horas é que saía, talvez às 4 e meia da tarde e depois ia para as tanoarias. Uma delas era na rua do Vale Formoso, recordo-me bastante bem porque eu saía da escola e em vez de vir a pé para casa (hoje eu tenho netos que vêm da escola de Uber), eu ia da rua do Vale Formoso para a Rua de Marvila, a pé, claro!

Para não ir sozinho ia ter com o meu pai (…), fica ali onde é hoje o Centro de Saúde, portanto é ali perto na rua do Vale Formoso. Nas tanoarias acabava por ser uma distração, era ver aquilo que os adultos faziam, na altura os tanoeiros e os barris eram feitos de maneira diferente, com o fogo.

Extrato da entrevista realizada em novembro de 2019 na Biblioteca de Marvila.